Da janela do quarto, entre o armário dos livros e o braço do sofá, vê-se uma nesga da cidade. É possível sentir o murmúrio das ondas que, de farol a farol – de Leça à Foz –, embalam um dos mais belos passeios marítimos. Dobrando a esquina, um passeio alegre abre as portas do rio – ora de ouro, ora de prata, ou mesmo azul e branco, assim feito pela forma como luz e água se beijam. Esticando o olhar um pouco mais, quem sabe à boleia rio-acima do mítico eléctrico n.º 1, espreita-se a Ribeira – postal ilustrado que leva além-fronteiras uma cidade, uma vasta região e um vinho que é generoso, delicado e de pronúncia vincada – tal como o carácter das gentes que o faz. Noutra direcção, é possível reconhecer uma música com casa própria e invulgar e, alongando o olhar por belos parques, avista-se a contemporaneidade de um museu genialmente anichado na paisagem. Tudo isto é o Porto reconhecido. Contudo, esta imagem carece da emoção de cores mais vivas, de outras luzes da cidade…

FEV11, Porto. Entre o Castelo do Queijo e o Edifício Transparente, o sol vai tombando com magia e graça, solicitando o bailado das ondas e o terno oscilar das árvores - que mais parece um longo até sempre... As cores namoram o encanto da lua.
Porto Vivo
Nesta tarde invernal, deixamos a janela activa a latejar no ecrã e decidimos seguir o rumor urbano. Na inquieta alma de viajante queríamos acrescentar os aromas aos sabores, os ditos às pronúncias, os recantos tradicionais às vistas improváveis. Descobrir a novidade e fazer parte da mudança, percebendo como se adequam as novas vozes numa cidade vibrante e metediça.
Já voltaremos a deixar-nos envolver na monumental Ribeira. Antes disso, conduzidos pelas cativantes vibrações, desaguámos na Cordoaria, porto de abrigo da fotografia. Quem nos recebe é Paulo, inusitado vigilante transformado em guia do Centro Português de Fotografia. Parece conhecer melhor que ninguém os cantos à casa, partilhando com agrado as emocionantes histórias que por ali se viveram – não tivesse sido uma antiga cadeia onde famosos pousaram! A simbiose entre o antigo e o novo, com a integração de novos usos no património histórico-cultural, parece começar a marcar o tom desta viagem e a revelar o ADN portuense.
Porto Cool
Deixando o imponente edifício da antiga Cadeia e Tribunal da Relação do Porto, toma-se a Rua dos Caldeireiros para encontrar, bem no início, uma proposta de carácter – o “Oporto Poets Hostel”, já considerado o 7.º melhor “Small Hotel” do Mundo. Desdobrado em dois locais, é porto seguro, “feito por viajantes para viajantes, de poetas para poetas”, com proposta tentadora: a friend to talk, a bed to sleep, a book to read. Tem varanda para o Porto monumental e porta que desafia os visitantes a entrar na cidade real.
Um pouco mais abaixo germina mais criatividade. Ana e Paula, duas jovens irreverentes e empreendedoras, apresentam o “MISS’OPO” como projecto de turismo cultural que pretende contribuir para a divulgação de toda a movimentação mais contemporânea da cidade. Atrás da cortina, revelam uma guest house para visitantes com pouco apetite por alojamentos mais tradicionais. Implantada em espaço regenerado e personalizado, propõe quartos-apartamento de dimensões variadas, de onde será possível realizar as mais originais curtas-metragens sobre a cidade. Esperemos pela estreia!
Porto Regenerado
Quando o manto da noite começa a embrulhar os edifícios e o ambiente ganha outro encanto, rumámos a novos sabores. Percorremos a Rua das Flores, onde se instala a cozinha com modos do “À Parte” e a promessa, ainda em instalação, do “Museu de Marionetas do Porto”, para desembocarmos no Largo de S. Francisco que transborda de inusitadas propostas.
No “Tea Point”, outras duas amigas seguem a rota do chá e desafiam-nos para evasões inspiradas entre os clássicos clubes de chá e o modernismo do espaço, dado pela mão do designer Paulo Lobo que, de resto, também avança, mesmo em frente, um novo espaço onde casa artesanato com contemporaneidade. No mesmo edifício que acolhe o “Lobo Taste”, o magnífico Palácio das Artes, está instalada a Fábrica de Talentos – nada mais sugestivo para este nosso périplo – e o selecto restaurante DOP, a aposta de Rui Paula no Porto, que mescla tradição, modernidade e muita criatividade.
Aqui chegados, deixámos a inércia vencer e somos sugados pela doçura das luzes da Ribeira, retomando o início da nossa viagem. Da bagagem brota uma cidade viva, cheia de vozes simpáticas e espaços alegres, onde a irreverência dos sonhos é transformada em energia contagiante. Fica a certeza de que há sangue novo nas artérias do Porto capaz de dar outras cores à cidade.

JAN11, Porto. Naqueles momentos em que o abraço estreito leva a promessa de um admirável novo dia...



























