Sangue Oculto

•Novembro 30, 2011 • Deixe um Comentário
 
Mescladas com o nobre carácter da cidade, são cada vez mais vivas novas pronúncias no Porto. Uma lufada de visitantes, em demanda por autenticidade e emoção, desafia distintas propostas – que as gentes da Invicta estão a saber responder. 
 
 

FEV11, Porto. Vigilante de um dia que se põe...

 

Da janela do quarto, entre o armário dos livros e o braço do sofá, vê-se uma nesga da cidade. É possível sentir o murmúrio das ondas que, de farol a farol – de Leça à Foz –, embalam um dos mais belos passeios marítimos. Dobrando a esquina, um passeio alegre abre as portas do rio – ora de ouro, ora de prata, ou mesmo azul e branco, assim feito pela forma como luz e água se beijam. Esticando o olhar um pouco mais, quem sabe à boleia rio-acima do mítico eléctrico n.º 1, espreita-se a Ribeira – postal ilustrado que leva além-fronteiras uma cidade, uma vasta região e um vinho que é generoso, delicado e de pronúncia vincada – tal como o carácter das gentes que o faz. Noutra direcção, é possível reconhecer uma música com casa própria e invulgar e, alongando o olhar por belos parques, avista-se a contemporaneidade de um museu genialmente anichado na paisagem. Tudo isto é o Porto reconhecido. Contudo, esta imagem carece da emoção de cores mais vivas, de outras luzes da cidade…

 

FEV11, Porto. Entre o Castelo do Queijo e o Edifício Transparente, o sol vai tombando com magia e graça, solicitando o bailado das ondas e o terno oscilar das árvores - que mais parece um longo até sempre... As cores namoram o encanto da lua.

 

Porto Vivo

Nesta tarde invernal, deixamos a janela activa a latejar no ecrã e decidimos seguir o rumor urbano. Na inquieta alma de viajante queríamos acrescentar os aromas aos sabores, os ditos às pronúncias, os recantos tradicionais às vistas improváveis. Descobrir a novidade e fazer parte da mudança, percebendo como se adequam as novas vozes numa cidade vibrante e metediça.

Já voltaremos a deixar-nos envolver na monumental Ribeira. Antes disso, conduzidos pelas cativantes vibrações, desaguámos na Cordoaria, porto de abrigo da fotografia. Quem nos recebe é Paulo, inusitado vigilante transformado em guia do Centro Português de Fotografia. Parece conhecer melhor que ninguém os cantos à casa, partilhando com agrado as emocionantes histórias que por ali se viveram – não tivesse sido uma antiga cadeia onde famosos pousaram! A simbiose entre o antigo e o novo, com a integração de novos usos no património histórico-cultural, parece começar a marcar o tom desta viagem e a revelar o ADN portuense.

 

DEZ10, Porto. Uma certa modernidade acende-se sobre esta cidade de carácter e fibra?

 

Porto Cool

Deixando o imponente edifício da antiga Cadeia e Tribunal da Relação do Porto, toma-se a Rua dos Caldeireiros para encontrar, bem no início, uma proposta de carácter – o “Oporto Poets Hostel”, já considerado o 7.º melhor “Small Hotel” do Mundo. Desdobrado em dois locais, é porto seguro, “feito por viajantes para viajantes, de poetas para poetas”, com proposta tentadora: a friend to talk, a bed to sleep, a book to read. Tem varanda para o Porto monumental e porta que desafia os visitantes a entrar na cidade real.

Um pouco mais abaixo germina mais criatividade. Ana e Paula, duas jovens irreverentes e empreendedoras, apresentam o “MISS’OPO” como projecto de turismo cultural que pretende contribuir para a divulgação de toda a movimentação mais contemporânea da cidade. Atrás da cortina, revelam uma guest house para visitantes com pouco apetite por alojamentos mais tradicionais. Implantada em espaço regenerado e personalizado, propõe quartos-apartamento de dimensões variadas, de onde será possível realizar as mais originais curtas-metragens sobre a cidade. Esperemos pela estreia!

 

Porto Regenerado

Quando o manto da noite começa a embrulhar os edifícios e o ambiente ganha outro encanto, rumámos a novos sabores. Percorremos a Rua das Flores, onde se instala a cozinha com modos do “À Parte” e a promessa, ainda em instalação, do “Museu de Marionetas do Porto”, para desembocarmos no Largo de S. Francisco que transborda de inusitadas propostas.

No “Tea Point”, outras duas amigas seguem a rota do chá e desafiam-nos para evasões inspiradas entre os clássicos clubes de chá e o modernismo do espaço, dado pela mão do designer Paulo Lobo que, de resto, também avança, mesmo em frente, um novo espaço onde casa artesanato com contemporaneidade. No mesmo edifício que acolhe o “Lobo Taste”, o magnífico Palácio das Artes, está instalada a Fábrica de Talentos – nada mais sugestivo para este nosso périplo – e o selecto restaurante DOP, a aposta de Rui Paula no Porto, que mescla tradição, modernidade e muita criatividade.

Aqui chegados, deixámos a inércia vencer e somos sugados pela doçura das luzes da Ribeira, retomando o início da nossa viagem. Da bagagem brota uma cidade viva, cheia de vozes simpáticas e espaços alegres, onde a irreverência dos sonhos é transformada em energia contagiante. Fica a certeza de que há sangue novo nas artérias do Porto capaz de dar outras cores à cidade.

 

 

JAN11, Porto. Naqueles momentos em que o abraço estreito leva a promessa de um admirável novo dia...

 

Em busca de um tesouro escondido

•Novembro 12, 2011 • Deixe um Comentário

Laos, Nov10. "Bang, bang"

A porta de uma boa história pode abrir-se com um gatilho – um acontecimento invulgar ou uma personagem inolvidável, uma particular emoção ou um lugar especial; enfim, será algo que nos faz reter aquele momento único e serve de cordel para desfiar o conjunto de memórias que é viajar.

A fotografia pode ser perfeitamente esse rastilho. E neste caso em concreto, o gatilho é bem mais do que uma figura de estilo – revela-se por inteiro e salta para a primeira linha desta nossa pequena crónica.

O Laos é um pequeno país do sudoeste asiático, encaixado entre a Tailândia e o Vietname, tocando ainda, a norte, o Myanmar e a China . É um país especial. Na verdade, muito especial. O que lhe falta em desenvolvimento e recursos materiais transborda em beleza e harmonia. É contagiante a boa onda de paz e alegria que se sente em qualquer lugar entre as suas simpáticas gentes, transformando qualquer périplo pelo país, pleno de tranquilidade, num excelente tónico para a alma.

E nestas paragens, é difícil ficar alheado da magia das crianças. Contudo, o gatilho que aqui trago revela um pouco mais do que esta aparente tranquilidade. Aliás, convoca sentimentos algo confusos.
Partindo da base da fotografia, sigo tranquilamente a linha do bidão em que se apoia a mão do miúdo e apanho boleia, através do seu braço, para as traquinices bem expressas na sua face. E assusto-me. Bang, bang. Logo ali ao lado, algo escondido na penumbra sinto-me vítima da minha própria observação. Afinal, o alvo sou eu.
O que aponta aquele dedo? O que visa aquela mão? Apenas mais uma brincadeira de criança, igual e inocente a tantas outras? Ou uma reacção à minha objectiva? Onde nos leva este diálogo tenso e que tesouros esconde?
Esta porta aberta revelará uma doçura ou travessura?

“da Viagem e dos Regressos” – fotografia de viagem

•Novembro 12, 2011 • Deixe um Comentário

Nas nossas mentes, viajar é quase exclusivamente ocupado pela partida: viajamos muito mais em direcção a algum destino do que em busca de certas emoções… Concentrados na ida, curiosamente, nem sempre alcançamos que “ir ao encontro” é, na maioria das vezes, regressar – aos experimentados momentos da memória ou aos imaginados espaços dos sonhos.

O desafio, em linha com o título proposto, é simples: partir com as fotografias e regressar onde vos levar a emoção. Afinal, nesta fotografia de viagem, quantas imagens cabem entre a deslumbrante Patagónia e a intensa Indochina?

Na Patagónia, notei a magia da vida e entusiasmei-me pela raridade deste nosso planeta declarada em lugares ímpares. Nestes cenários de sonho, fui-me interrogando sobre o precário equilíbrio da natureza, sobre o imperativo da nossa consciência colectiva, enfim, sobre o futuro da terra-mãe.

Do outro lado, na Indochina, desafiado por uma miríade de olhares, senti delicadas formas de um mundo polvilhado por alegres cores. Partilhando uma panóplia de experiências, aprofundei a descoberta da mais fantástica criação: o ser humano, com toda a sua singular e complexa beleza.

Neste bilhete de ida-e-volta – entre maravilhas que fazem do Mundo um lugar único e os mundos interiores que fazem rara cada pessoa; entre lugares reconhecidos e caras anónimas; entre horizontais linhas coloridas e quadrados salpicados de preto-e-branco – está incluído o mais simples dos desafios: um regresso às origens.

 

Porto, Nov11. "da Viagem e dos Regressos" - fotografia de viagem

A exposição de fotografia estará patente no

El Corte Inglés Gaia/Porto (Âmbito Cultural – 6.º piso)

até ao dia 1 de Dezembro 2011.

Pode ser visitada todos os dias, das 10h às 23h.

The End of an Era – 1935 to 2010 (via Steve McCurry’s Blog)

•Dezembro 30, 2010 • Deixe um Comentário

Não podia deixar passar este marco na fotografia, socorrendo-me das brilhantes imagens de Steve McCurry – um dos mais importantes fotógrafos da actualidade – que teve o privilégio de disparar os últimos 36 rectângulos do filme…
O título que ele atribui é absolutamente exemplificador – o fim de uma Era.

Eu acrescentaria que, inexoravelmente, um ano novo só pode nascer quando outro acaba… Esta é a vida!

The End of an Era  - 1935 to 2010                                                                                 Rabari Magician      Today is the day that Dwayne's Photo in Parsons, Kansas, the last lab on the planet to process Kodachrome,  stops developing the iconic film forever.  When Kodak stopped producing the film last year, they gave me the last roll.   When I finished shooting the final frames, I hand-delivered  it to Parsons.   Here are a few of those last 36 frames.   … Read More

via Steve McCurry's Blog

Feliz Natal e Admirável Ano Novo 2011

•Dezembro 25, 2010 • Deixe um Comentário

3x3x3

•Dezembro 22, 2010 • 1 Comentário

Vê luz um novo livro de fotografia onde participo. “Essência e Memória III” é uma colectânea de fotografia onde fotógrafos sobretudo amadores, mas também menos amadores, têm a oportunidade de dar alguma visibilidade à sua sensibilidade artística.

Imagem da capa do Livro "Essência e Memória, vol. III". A todos os interessados em adquirir um exemplar, agradeço que me contactem.

 

Uma vez mais, a fotografia e as viagens guiaram a minha escolha.

Tal como escrevo na sinopse auto-bibliográfica que acompanha as fotografias:

As viagens são um porto de partida: seja pela descoberta ou pelo encontro; pela surpresa e pelo insólito; através de curtos percursos ou de longas travessias. A fotografia tem sido um porto de abrigo: uma forma de ver, um meio de partilhar, logo de comunicar.

Gosto de afirmar que o meu espaço favorito é o da fotografia de viagem – essa “terra de ninguém”, e de todos, que liga o retrato à paisagem natural; observa as gentes e os locais; revela distintos ambientes (urbanos, nocturnos, íntimos,…) ao mesmo tempo que propõe a construção de tantas outras estórias…
(…)

Assim, a escolha das 3 fotografias publicadas teve em atenção outros tantos critérios:

  • Que espelhassem esta “paixão” pela fotografia de viagem;
  • Que incluíssem o elemento humano – elemento nuclear, que dá graça e colorido às estórias de viagem;
  • Que fossem de contextos culturais distintos.

 

Usei a táctica 3x3x3: 3 continentes, 3 culturas e 3 idades distintas.

  • Alma tímida - retendo o inesquecível azul de Chefchaouen (já aqui falei dele, aquando de “cores da memória”) retrata os ”Olhares da Alma” de Marrocos, um pouco de África;
  • Mil desejos - da série ”Isto é Itália!”, é uma foto onde encontro forte emoção (também por cá descrita) na profundidade da cultura europeia;
  • Renda de caqui - é uma fotografia feita no mercado flutuante Damnoen Saduak, perto de Banguecoque, na Tailândia, onde realizei a série “Mil Sorrisos”. Ela contém parte da enorme beleza da Ásia. A harmonia das cores, a beleza das formas, e, sobretudo, o que fica por dizer… são razões mais do que suficientes para a escolha.

Marrocos, Jul05. "Alma tímida".

 

Itália, AGO07. "Mil desejos".

 

Tailândia, AGO08. "Renda de caqui".

 

E remato:

Porque a fotografia tem esta capacidade paradoxal: na mesma medida que fixa um momento que passou e não volta mais, revela um futuro desconhecido através de uma perspectiva ímpar… Creio que é aqui que reside uma boa parte da graça, da beleza e do valor da fotografia.

Perfume de Oriente

•Dezembro 2, 2010 • Deixe um Comentário

E por falar em viagens e em regressos… Será que podemos regressar aonde nunca estivemos?

Baralhados? Um pouco. Mas, será assim tão estranho?!

Singapura, JAN08. "O Essencial é Invisível..."

 

Aconteceu-me “regressar” ao Oriente na primeira vez que lá estive. Acreditem!

Dava os primeiros pulos o ano de 2008 quando senti, pela primeira vez, o perfume do Oriente. Aterrei em Singapura – cidade-estado onde, para além do encontro entre o Oriente e o Ocidente, a China e a Índia se juntam: de Chinatown a Little India vai um pequeno passo. Desvendava todo um mundo novo: das cores aos cheiros; das pessoas aos lugares e cenários.

Singapura, JAN08. "Uma Tradição Moderna". Os contrastes são uma realidade de Singapura.

 

Na medida em que as imagens desfilavam à minha frente, que os lugares se apresentavam, que as personagens se construíam, havia um inebriante aroma que se revelava familiar. Suave e delicadamente, parecia um regresso a casa; um percurso num território desconhecido mas familiar – fascinantemente confortável; uma estadia num porto conhecido. Tranquilamente e sem perceber muito bem, regressava a memórias de lugares onde não tinha estado antes. Recordava o perfume de um lugar conhecido – o perfume do oriente.

Talvez o Oriente seja o meu porto de aconchego…

Malaca - Malásia, JAN08. "Caminhos da fé".

 

Impossível, dirão. Talvez não, acrescento. Inebriados por esse perfume, talvez encontremos uma explicação perfeitamente plausível para esta sensação. Da mais prosaica à mais exotérica.

Desde o simples facto de que nem todas as viagens são físicas e implicam a deslocação: quanto não viajamos a bordo de um bom livro ou filme? Ou à boleia de conversas de amigos e conhecidos? Ou através de algumas brilhantes imagens? (O que eu viajo com alguns fotógrafos.. daqueles mesmo bons que têm a capacidade de nos levar na lente, colocando-nos mesmo ao lado do assunto fotografado).

Singapura, JAN08. "Trindade". Este perfume que se espalha no ar...

 

Poderíamos, de igual modo, aceitar que a nossa alma já teve outras moradas, já ocupou outros espaços. E aí, talvez a minha tenha repousado pelo Oriente. Por que não?

Singapura, JAN08. "Outros personagens"

 

Aceitemos a hipótese que melhor nos sirva. Todavia, resulta claro que é sempre possível viajar desde que mantenhamos o espírito alerta, a mente desperta e o coração disponível.

Singapura, JAN08. "Aqui cheguei". Regressar onde encontramos paz de espírito.

 

É curioso que toda esta conversa me despertou uma outra questão:

- afinal, quantas viagens fazemos, de cada vez que partimos e regressamos?

Vamos guardá-la para um post futuro. Até lá, boas viagens!

;)

Regressar

•Setembro 21, 2010 • Deixe um Comentário

 

SET06, Alentejo. A beleza da vida no fim do Verão...

 

Setembro é mês de regressos.

Regressamos à vida – à nossa vida! – após uma pausa estival, mais ou menos prolongada. Com alguma nostalgia voltámos de férias, de recordações fartas e carregados de saudades, num regresso sempre pesaroso à rotina. Ao dia-a-dia.

SET08, Barcelos. A magia dos pequenos espaços...

 

No regresso à escola – tão exaustivamente explorado pelo marketing de consumo – renovamos expectativas e acrescentámos sonhos. Porque o regresso à escola também é o nosso regresso à labuta, ao trabalhinho… aos nossos anseios.

SET10, Barcelos. A insustentável leveza do ser... Toda uma vida que se renova.

 

Com dias mais pequenos, mais cedo ou mais tarde, regressa também o tempo frio e o refúgio na vida mais caseira… Uma nova estação se gera, regressando as cores pálidas e outonais, o cheiro das vindimas e o sabor das castanhas assadas a queimar as mãos.

SET10, Barcelos. A cor da vida está, afinal, na surpresa dos pequenos instantes...

 

Regressamos, enfim, a alguns lugares que nos são comuns, recheados de memórias que esperamos felizes. Celebrando com alegria e conduzidos pelas leis da natureza, cumprimos o ritual da vida, com maior consciência da sua inevitabilidade: por cá, tudo é cíclico.

SET10, Matosinhos. A intensidade de um dia que se fecha, levando no ventre o regresso de novos sonhos..

 

É curioso abordar este tema pela perspectiva da viagem. Aliás, será que existe viagem sem regresso?

:)

Meu querido mês de Agosto

•Agosto 31, 2010 • Deixe um Comentário

 

Itália, AGO07. "Chegados ao Adriático". A emoção dos momentos.

 

Para a maioria dos portugueses, Agosto é mês de férias. Tempo livre, de praia, campo ou cidade, de viagens e de evasões… Ainda que esta tendência já tenha sido mais marcante, o ritmo anual das actividades – escola dos miúdos, encerramento de algumas empresas e serviços, tempo tradicionalmente mais quente – leva a uma certa concentração das férias neste período.

Claro que tudo isto já fez mais sentido. Com a globalização das economias e a democratização do turismo, as férias assumem contornos cada vez mais diferentes. São já muitos os portugueses que procuram outros destinos – mais ou menos exóticos – noutras latitudes, opções que recomendam, sobretudo pelo clima, outros períodos do ano. Basta pensarmos que a opção de viajar para o hemisfério sul seja mais aprazível na Primavera/ Verão de lá, ou seja, o nosso Outono/ Inverno.

Itália, AGO07. Casas Truli

Tenho optado por férias fora do “mainstream” e confesso que estou fã. Por duas grandes razões: por um lado, é mais fácil, menos confuso e, eventualmente, mais barato viajar fora da “época alta” – claro que em muitos casos, viajamos para a época alto do destino…; e, por outro lado, gosto de trabalhar em Agosto – é mais fácil disfrutar da cidade, agora mais vazia, há menos compromissos e a azáfama do dia-a-dia diminui consideravelmente. Acaba por ser, na sua medida, retemperador. O único senão desta opção é mesmo assistir à partida e à chegada de férias dos amigos, com as suas façanhas de fazer inveja, repletas de imagens que nos aliciam o espírito para uma partida imediata.

Amesterdão, AGO06. "Cidade trilhada". Os deliciosos city breaks.

Aproveitando a tendência de crescimento do turismo, da intensificação do lazer e dos tempos de evasão, a fotografia de viagens tende a ser vulgarizada nos nossos dias, e, à primeira vista, desvalorizada.

Nas merecidas férias, todos carregamos, no mínimo, uma câmara “point-and-shot” e praticamos um certo terrorismo… Já não é insólito ouvir que a volta veio carregada de mil-e-trezentas fotos numa viagem às ilhas espanholas, ou 6 mil numa incursão pela Índia, ou 40 GB num safari africano…

A questão é: que fotografias são estas? E que uso lhes damos?

Obviamente, não me refiro à sua qualidade intrínseca, muito menos ao seu valor. Apenas, ao seu significado. Se são registos de momentos que queremos perpetuar na memória, logo estão impregnados de emoções, então temos fotografias! Se, pelo contrário, foi um mero exercício tecnológico, numa sucessão infinita, monótona e desinteressante de ficheiros banais, mais valia que tivéssemos esquecido a câmara em casa e regressássemos apenas com a nossa memória visual mais rica, a mente mais desperta e o corpo revigorado.

Tal como dizia o grande mestre Cartier-Bresson:

“Fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração.”

 

Tailândia, AGO08. "Hoje não fui à escola". Ao encontro de culturas distintas...

Uma nota final. Não obstante esta aparente banalização, acredito que o papel e a importância da boa fotografia têm sido reforçados. Seja porque a desilusão é grande no momento de “revelar”, seja porque estamos também mais atentos, logo mais críticos, cresce a procura por melhor fotografia. Neste sentido, a massificação, na mesma medida que banaliza, confere força, importância e valor àquela fotografia que se distingue, àqueles grandes olhares que conseguem ver para lá do evidente: captando o espírito de um lugar, a intensidade dos sentimentos de um instante, a plenitude das emoções que perdurarão. Aquelas memórias (fotográficas) que o tempo não irá apagar.

Assim se faz de um mês quente, um querido mês de Agosto.

Tailândia, AGO08. Fotografia de paisagens que nos embalam o olhar...

World Photography Day | Celebrating Photography

•Agosto 19, 2010 • Deixe um Comentário

Patagónia, NOV09. "Admirável novo dia!". Inolvidável nascer do sol junto ao Fitz Roy

Hoje é um dia especial – celebra-se a fotografia!

Para mim não é um dia muito diferente de tantos outros… Todavia, é um modo de chamar a atenção para esta tão nobre arte; esta forma de ver e partilhar o Mundo; este processo de sonhar, construindo um futuro melhor…

Porque a fotografia tem esta capacidade paradoxal: na exacta medida que fixa um momento que passou e não volta mais, revela um futuro desconhecido através de uma perspectiva ímpar… Creio que é aqui que reside uma boa parte da graça, da beleza e do valor da fotografia.

Gosto de afirmar que o “meu espaço” favorito dentro da fotografia é o da fotografia de viagem – esta “terra de ninguém” que liga o retrato à paisagem natural; explora as gentes e os locais; revela os ambientes (urbanos, nocturnos, íntimos,…) ao mesmo tempo que exibe a história e permite que tantas outras estórias se construam…

A “Photographic Society of America” define fotografia de viagem

as an image that expresses the feeling of a time and place, portrays a land, its people, or a culture in its natural state, and has no geographical limitations.

 

É deliciosa esta descrição:

  • Exprimir o sentimento de um tempo e lugar;
  • Retratar o espaço, as pessoas ou a cultura;
  • Num estado natural;
  • Sem barreiras geográficas.

 Que mais dizer?

No que me toca, a fotografia de viagem é a essência, a fotografia em si mesma:

 - Qual é a fotografia que não conta uma história, não propõe uma viagem?

 
Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.