Em busca de um tesouro escondido
A porta de uma boa história pode abrir-se com um gatilho – um acontecimento invulgar ou uma personagem inolvidável, uma particular emoção ou um lugar especial; enfim, será algo que nos faz reter aquele momento único e serve de cordel para desfiar o conjunto de memórias que é viajar.
A fotografia pode ser perfeitamente esse rastilho. E neste caso em concreto, o gatilho é bem mais do que uma figura de estilo – revela-se por inteiro e salta para a primeira linha desta nossa pequena crónica.
O Laos é um pequeno país do sudoeste asiático, encaixado entre a Tailândia e o Vietname, tocando ainda, a norte, o Myanmar e a China . É um país especial. Na verdade, muito especial. O que lhe falta em desenvolvimento e recursos materiais transborda em beleza e harmonia. É contagiante a boa onda de paz e alegria que se sente em qualquer lugar entre as suas simpáticas gentes, transformando qualquer périplo pelo país, pleno de tranquilidade, num excelente tónico para a alma.
E nestas paragens, é difícil ficar alheado da magia das crianças. Contudo, o gatilho que aqui trago revela um pouco mais do que esta aparente tranquilidade. Aliás, convoca sentimentos algo confusos.
Partindo da base da fotografia, sigo tranquilamente a linha do bidão em que se apoia a mão do miúdo e apanho boleia, através do seu braço, para as traquinices bem expressas na sua face. E assusto-me. Bang, bang. Logo ali ao lado, algo escondido na penumbra sinto-me vítima da minha própria observação. Afinal, o alvo sou eu.
O que aponta aquele dedo? O que visa aquela mão? Apenas mais uma brincadeira de criança, igual e inocente a tantas outras? Ou uma reacção à minha objectiva? Onde nos leva este diálogo tenso e que tesouros esconde?
Esta porta aberta revelará uma doçura ou travessura?

